Micarla rompe o silêncio e afirma que Carlos Eduardo quer dar continuidade a gestão dela


A prefeita de Natal, Micarla de Sousa (PV), concedeu entrevista pela primeira vez após anunciar que não seria candidata à reeleição. Micarla diz que não está apoiando ninguém nessas eleições e que avalia a possibilidade de votar em Carlos Eduardo, por ser ele “quem mais tem colocado no seu discurso que vai dar continuidade a minha gestão”.  Nesta entrevista, a prefeita fala pela primeira vez como pretende deixar a prefeitura e antecipa o que o próximo gestor enfrentará na gestão do Palácio Felipe Camarão. “Infelizmente, as perspectivas não são boas”, adverte. “Se os próximos gestores não contarem com a sensibilidade do governo do Estado e com uma simbiose com o governo federal, a cidade vai amargar horas muito duras”.

Micarla pretende descansar quando deixar a Prefeitura a partir de 1º de janeiro. “Preciso descansar o meu corpo, meu espírito, minha alma, minha cabeça. Foram quatro anos muito duros, de muitos ataques”, lamenta, enfatizando que pertenceu à primeira geração de prefeitos que enfrentou o fenômeno das redes sociais. “E esse encontro entre política e redes sociais ainda é um aprendizado”.
Quanto ao Partido Verde, a líder estadual da legenda nega que planeje deixa-la. “De forma alguma. É um partido que eu não estou por uma questão partidária, mas por uma questão de ideais e porque acredito e porque faz parte do meu coração”. A respeito de disputar outro cargo público, porém, Micarla descarta. “A missão da política é muito bonita, vou sempre me orgulhar de ter tido a honra e o privilegio de ser prefeita da minha cidade. Mas penso em trilhar outros caminhos”.
Sobre seu governo e os ataques que sofre na presente campanha, Micarla afirma que a gestão que tem que ser avaliada não é mais a dela, mas a de quem já passou pelo cargo e é candidato. “Alguns candidatos acham que a falta de propostas deles pode ser suprida pelos ataques. Eu não sou candidata. A minha gestão não tem, nesse momento, que está sendo avaliada”, avalia. Sobre estes e outros temas, a prefeita Micarla de Sousa concedeu a seguinte entrevista exclusiva ao Jornal de Hoje.
Jornal de Hoje – Como está a saúde da senhora?
Micarla de Sousa – Do meu maior problema, que é a questão do coração, eu, graças a Deus, não tive mais nenhum problema. Estou bem, sendo acompanhada dos meus médicos. O problema é que, há 22 dias, eu estava descendo uma escada, tropecei e cai da escada, e terminei lesionando os ligamentos do pé esquerdo, e estou com a perna imobilizada e ainda sem previsão de quando poderei tirar essa bota e voltar à rotina normal.
JH – Como isso está interferindo no seu dia a dia?
MS – Na locomoção. Porque eu não posso botar o pé no chão. E eu ponho. Então isso tem me provocado muita dor, por causa da minha insistência em sair. Mas tenho feito de tudo para, ou na minha casa, ou no meu gabinete, estar o dia inteiro trabalhando. Mas, as visitas que sempre costumei fazer, as inaugurações, toda essa parte de rua, tem sido comprometida por conta desse problema. Mas a gente não escolhe, são coisas que acontecem e eu estou tendo que aceitar isso e buscar continuar trabalhando.
JH – Quanto tempo ficará com essa bota?
MS – Estou há 22 dias, mas posso ficar até três meses. Vai depender das avaliações.
JH – Quatro meses de gestão. Qual sua meta?
MS – É deixar a casa em ordem. Quando eu cheguei à Prefeitura encontrei muitos problemas porque a casa não foi deixada em ordem. E nós estamos passando por muitas dificuldades financeiras. Há três anos e oito meses eu administro Natal apenas com nossos recursos municipais. O governo do Estado até hoje não teve qualquer gesto com o município de Natal. Nem na gestão de Wilma, tampouco na de Rosalba. Por parte do governo federal é onde está a maior parceria com a cidade, mas somente nas obras da Copa. Mas minha principal meta é deixar a cidade organizada, buscando um equilíbrio nas finanças para que o próximo gestor encontre menos dificuldades do que eu encontrei.
JH – Por que o aumento das passagens?
MS – Todos os gestores que passaram antes de mim deram aumentos anuais de passagens. A última vez que este aumento havia sido concedido na minha gestão foi há 18 meses. Há um ano e meio não havia qualquer tipo de aumento. Os empresários do setor já vinham pleiteando, inclusive greves foram feitas. Acontecia que estávamos no processo da licitação e dentro desse processo, estávamos encontrando qual seria o equilíbrio econômico-financeiro para as empresas, se realmente haveria necessidade desse aumento. E verificamos que existia a necessidade.  Porque, se não, iriamos colocar em xeque o atual sistema de transporte público, que tem seus problemas, mas houve dois aumentos salariais e dois outros de óleo diesel. Então o que questionávamos era o valor. Na hora que a SEMOB encontrou o valor, nós verificamos que era o momento desse aumento ser dado. Nada mais do que isso. A própria SETURN tinha solicitado um aumento para R$ 2,55, e a Prefeitura chegou ao valor dos R$ 2,40, e não R$ 2,55. A questão é que, infelizmente, isso é usado eleitoralmente por alguns. Mas na hora que não dei o aumento, na hora que peitei os empresários, que disse que não iria dar aumento, até a SEMOB saber realmente se esse aumento era necessário, não vi ninguém ir para as ruas dizer muito bem, prefeita! Parabéns, prefeita! Não vi nenhum partido ir para porta da Prefeitura dizer muito bem! Pelo contrário, foram várias lideranças comunitárias para a Prefeitura, logo que o aumento não foi dado, e disseram que aquelas lideranças eram compradas por mim, que estavam a serviço da prefeita. Mas eu não vi nenhuma entidade estudantil, um partido político! Há seis meses eu não dei o aumento, quando era para ter sido dado, conforme o pedido dos empresários de ônibus e o sindicato dos rodoviários. Não dei o aumento e não apareceu ninguém. E agora, isso é tratado como bandeira de partido a, b e c. É terrível ver que, até nisso, as pessoas querem se aproveitar politicamente.
JH – Que está achando da campanha eleitoral em Natal até agora?
MS – Estou completamente fora da campanha por uma decisão minha. Não estou participando da campanha, mesmo com pedidos dos nossos candidatos a vereadores. Também no interior tenho sido bastante solicitada pelo nosso partido e por aliados, mas eu decidi que nesse ano, os últimos meses seriam para focar no final da gestão. Não desapaixonei da minha cidade, nem da política. Mas eu fiz uma opção de focar no final da gestão. Mas o que estou sentindo, como eleitor, é que a campanha está muito morna em Natal. A sensação que a gente tem é de que não está havendo campanha, a gente não vê movimentações de rua, e tenho sido informada por pessoas, principalmente candidatos a vereador, que isso é algo que está acontecendo em todos os bairros de Natal, uma frieza muito grande dos eleitores em relação aos atuais candidatos. A campanha desse ano talvez seja a última campanha que agente possa dizer de rua mesmo em Natal. Acho que as próximas campanhas terão que ser recriadas, reinventadas. Esse estilo de caminhada foi feito na época que Wilma era prefeita. Passando dos grandes comícios, porque me lembro do meu pai (ex-senador Carlos Alberto de Sousa), de José Agripino, de Aluizio Alves, aqueles grandes comícios, aquelas grandes passeatas, e aí teve o período, quando Wilma chegou, e transformou nas grandes caminhadas. Acho que talvez essa seja, quem sabe, talvez, a última campanha de rua.
JH – Alguns candidatos estão com foco na senhora, que acha?
MS – É terrível. Alguns candidatos acham que a falta de propostas deles pode ser suprida pelos ataques. Eu não sou candidata. A minha gestão não tem, nesse momento, que está sendo avaliada. A gestão que tem que ser avaliada é a gestão de quem já passou e é candidato. Mas muitas vezes, para se esconder o que aquele gestor fez no passado, é muito mais fácil, em vez de falar de si e do que fez, e falar ela deixou de fazer e apontar o dedo para mim. Por que não prova e mostra o que você, como candidato, eleito prefeito, pode fazer, ao invés de estar apontando os defeitos?  É terrível uma campanha com tão poucas propostas. Quando vejo meu programa eleitoral e comparo com o que eu fiz, eu não cometi estelionato eleitoral. Eu disse que ia fazer creche e entreguei 54. Eu disse que ia fazer UPA e já vou na minha segunda UPA que, se Deus quiser, a gente entrega em outubro a UPA de Cidade da Esperança. Eu disse que ia fazer que jovens universitários pudessem fazer bolsas de estudo e temos 18 mil alunos com bolsas de estudo sendo pagas pela prefeitura. Eu disse que ia tirar gente de favela e estão lá 3.200 que moram fora de favela, em casas que a nossa gestão construiu e entregou. Falei que ia fazer o plano de cargos e salários, e está o plano de cargos e salários entregue. Então, eu não cometi nenhum estelionato eleitoral. Às vezes as pessoas me olham e perguntam, poxa, e as ruas? Ora, eu nunca prometi que ia calçar tantas ruas no meu programa eleitoral. Eu dizia que ia calçar vidas, iria transformar vidas. Eu tenho muito orgulho de dizer que isso eu fiz. E um dia hão de reconhecer o que hoje se vê na saúde com as UPAS, com as AMES, sem remédio faltando, com médicos nas unidades, um dia vão reconhecer as AMES e as UPAS, as creches que implantamos na marra. São coisas que me dão prazer. Mas é triste ver os candidatos se digladiando e utilizando a minha imagem, falando questões contrárias a mim, quando uns inclusive estiveram ao meu lado, participaram do meu governo e da minha gestão, e outros que nada fizeram. Porque se eu tivesse encontrado a prefeitura mais organizada, eu não teria enfrentado tudo que enfrentei.
JH – Com relação às propostas dos candidatos, que acha?
MS – A grande maioria das propostas é continuar o meu trabalho. Quando vejo meu principal adversário dizer que vai continuar o projeto das UPAS e das AMES, um cidadão que tanto critica, quer dizer que o projeto foi bem conduzido? Que o projeto foi aprovado? Quer dizer que a minha gestão acertou? Quando eu vejo outro candidato dizer, não, nós vamos continuar o projeto das academias da terceira idade, então quer dizer que as academias da terceira idade foram um projeto que deu certo? O pouco que existe de propostas são de continuidade da minha gestão. É um contrassenso dizer que a minha gestão acabou, quando o pouco de proposta que existe são propostas focadas na continuidade da minha gestão. Eu quero que alguém tenha coragem de dizer que vai acabar com um dos meus projetos, como AMES, UPAS, com o plano de Cargos e Salários, com o projeto de remoção de favelas.
JH – A senhora está apoiando indiretamente Hermano?
MS – Eu não estou apoiando ninguém. Eu não estou apoiando absolutamente ninguém. Eu estou me dando o legítimo direito de, assim como qualquer cidadão, de poder ver as propostas, escolher quem realmente pode ser a pessoa que vai dar continuidade a minha gestão. Mas pelo que estou vendo, quem mais tem colocado no seu discurso que vai dar continuidade a minha gestão é o ex-prefeito Carlos Eduardo. Então, eu estou analisando em quem eu vou votar.
JH – A senhora está entrando com ações contra candidatos. Espera coibir os ataques?
MS – A Justiça tem sido muito justa. Eu creio que a Justiça há de coibir esses assuntos. Na campanha de 2010 eu não era candidata e todos os holofotes eram focados em mim porque os candidatos como o ex-prefeito (Carlos Eduardo), que era candidato a governador, mas na verdade não queria ser candidato a governador, queria mesmo era usar aquele horário eleitoral, aquela plataforma para poder ser candidato agora. A ex-governadora que queria os votos de Natal. Então todo mundo batia muito em mim e naquele momento eu não podia ter direito de resposta. Mas, agora eu tenho esse justo direito, quando as mentiras são ditas. Foi um absurdo o que foi dito nos primeiros dias da eleição, me chamando de irresponsável e incompetente. Atacaram a minha honra, a Micarla gente de carne e osso, que tem família e filhos e história de vida. Não pousei de para queda. Todo mundo me conhece desde que nasci. Então tem que respeitar e espero que a Justiça faça Justiça.
JH – Como o próximo prefeito encontrará a prefeitura a partir de janeiro de 2012?
MS – Infelizmente, as perspectivas não são boas. Desde 2008, com a crise mundial que acometeu todo mundo e o Brasil, com a história da bolha imobiliária. Tanto que a previsão é de crescimento de 1,5% para este ano. Isso mexe com a situação financeira dos municípios brasileiros. Porque estão sobrecarregados. Sou vice-presidente da Frente Nacional de Prefeitos e digo que essa é a geração mais sofrida de prefeitos, que menos recursos tiveram. Eu até advirto: se os próximos gestores não contarem com a sensibilidade do governo do Estado, para ver que a capital precisa de apoio, e se não tiver simbiose com o governo federal, posso dizer que o próximo prefeito da cidade vai amargar horas muito duras, porque hoje a cidade do Natal vive exclusivamente de impostos como IPTU, como o ICMS, como o FPM e não recebemos um só real do governo do Estado e isso faz muita falta para a cidade.
JH – Que reflexão faz hoje sobre a decisão de não ser candidata?
MS – Foi a decisão mais difícil que já tomei na minha vida porque sempre amei a política antes de ser política, está no meu sangue, é uma das missões mais sublimes que alguém recebe de Deus, mas que, infelizmente, não é vista pela população dessa forma, que vê políticos como pessoas que não merecem respeito e terminam colocando na política pessoas que não merecem respeito. Mas hoje o que sinto é tranquilidade. Foi uma decisão dura e difícil, mas foi uma decisão de vida. Minha saúde estava muito comprometida, fiz cirurgia cardíaca e não tive o repouso necessário, apenas três dias, isso me provocou vários efeitos e essa cirurgia não pode ser refeita, o que posso fazer é ter mais cuidado com meu estilo de vida. E eu precisava me dedicar mais à família. Eu não me arrependo da decisão que tomei, até porque sei que no curto espaço de tempo que estive na prefeitura eu fiz muito, mas muito mais do que todos que passaram antes de mim. Essas marcas vão ficar. Algum dia alguém vai se lembrar de uma prefeita que cuidou de gente e que passou quatro anos com a honra de ter representado essa cidade.
JH – Que pretende fazer ao deixar a prefeitura?
MS – Primeira coisa é descansar. Preciso descansar o meu corpo, meu espírito, minha alma, minha cabeça. Foram quatro anos muito duros, de muitos ataques. Eu também fui a primeira geração de prefeitos que encontrei as redes sociais e esse encontro entre política e redes sociais ainda é um aprendizado. Quem sabe os próximos prefeitos, com esse convívio com as redes sociais, as coisas possam ser mais amenas. Foram anos muito duros, anos de muita cobrança, de cobrança em excesso, cobrança que nunca antes havia sido feita a nenhum gestor, até pela própria rapidez que o mundo hoje se desenvolve. Mas o que eu mais quero agora é descansar. Ter direito a ter minha vida de volta. Poder descansar, sair com meus filhos na hora que eu quiser e fazer o que eu quiser, e poder viver.
JH – Como encarou a prisão de um de seus auxiliares?
MS – Foi um momento muito duro, muito difícil. Porque eu conheço, conhecia todos os meus auxiliares. Não consegui entender porque aquilo estava acontecendo. Eu não conseguia entender onde que aquelas peças estavam no tabuleiro. Fiquei triste, é obvio, com todo o processo que eles enfrentaram. Mas logo em seguida, eu vi que não existiu nenhum tipo de denúncia formal contra aquelas pessoas. E infelizmente aconteceu tudo que aconteceu, mas posteriormente, até agora, não houve qualquer tipo de denúncia formal. Então eu continuo crendo, acreditando, e confiando na lisura e na correção dos meus auxiliares.
JH – Pretende disputar algum cargo público?
MS – Eu disse que quero viver, quero descansar.  O futuro a Deus pertence, mas, isso não está nos meus planos. Pelo menos por enquanto isso não está nos meus planos. Eu tenho outros planos para minha vida, de cumprir outras missões. A missão da política é muito bonita, vou sempre me orgulhar de ter tido a honra e o privilegio de ser prefeita da minha cidade. Eu com 38 anos de idade, uma jornalista, no RN, sem sobrenome Alves ou Maia, poder ter tido a honra de estar à frente da minha cidade. Mas agora eu penso em outras missões, diferenciadas, não maiores ou menores que a política. Mas penso em trilhar outros caminhos.
JH – Em relação ao PV, vai deixar o partido?
MS – Não, de forma alguma. O PV sempre existiu em mim. É um partido que eu não estou por uma questão partidária, estou por uma questão de ideais, porque acredito nos ideais do partido. Porque acredito que é o futuro de todo o planeta. Faz parte do meu coração.
JH – Em relação ao apoio a Rosalba, se arrepende?
MS – Se tem algo que não faço na vida é me arrepender. Acredito que tomei a decisão correta. Acredito que Rosalba era o melhor nome, até por ser minha correligionária na época, porque eu acreditava que ela pudesse ajudar a nossa cidade, infelizmente isso não aconteceu. Mas me arrepender, não. Acho que a governadora ainda tem chance e eu espero que quem venha depois de mim tenha mais sorte que eu.
JH – E Dilma, correspondeu ao apoio?
MS – Totalmente. Se tem uma pessoa que foi correta do início até o fim, que tem sido até agora, é a nossa presidenta Dilma. Essa daí eu não me arrependo jamais de ter votado, de ter ido, ter buscado o apoio nacional do meu partido ao seu nome, de ter rompido inclusive com as estruturas que me apoiavam. Porque todas romperam comigo após o anúncio do apoio a presidente Dilma, que é uma pessoa que não apenas ao RN, mas para Natal, ela tem sido um braço forte, nos ajudando em defesa da nossa cidade. A presidenta Dilma tem orgulhado muito a nós mulheres, a nós mães e mulheres políticas e tem orgulhado ao povo brasileiro no aspecto maior e geral. Tenho muito orgulho da nossa presidente. Vou continuar e espero em 2014 votar nela de novo para presidenta.  Mas espero poder ajudá-la não mais como prefeita, mas em outros campos, mas principalmente poder votar nela mais uma vez.
Fonte: JH

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